The Hateful Eight: entenda o hype sobre Ultra Panavision 70mm, o formato do novo filme do Tarantino
janeiro 11, 2016
Pedro Vilhena (189 articles)
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The Hateful Eight: entenda o hype sobre Ultra Panavision 70mm, o formato do novo filme do Tarantino

Muito se fala sobre o formato de The Hateful Eight, o tal Ultra Panavision 70mm. Quase sempre as pessoas não sabem do que realmente se trata. Será algo real ou um golpe de marketing? Dá pra notar alguma diferença?

Em seu oitavo filme Tarantino retorna à época pós-guerra civil que já visitara em Django. O filme quase foi cancelado por vazamento do roteiro na internet, mas eventualmente o diretor conduziu uma leitura e se animou com o resultado. O Ultra Panavision 70mm é um formato raro de captação e exibição, e em várias entrevistas (uma delas a mesa redonda do Hollywood Reporter) Tarantino disse que só pode investir o nisso porque sentiu que o roteiro teatral funcionava de qualquer jeito, mais que em Bastardos Inglórios ou Django.

No seu esforço vintage ajudou a dar uma ideia à Hollywood: a película 70mm é um formato que ainda não pode ser superado digitalmente. Poderia ela ser a salvação do cinema? O novo 3D? Boatos já dão conta que o novo Star Wars será rodado em 70mm, e que há fila e leilão para agendar a locação das câmeras em Hollywood. Mas vamos começar do começo…

Robert Richardson, que trabalha com Tarantino desde Kill Bill, foi o DP de The Hateful Eight. Em busca do look mais velho-oeste possível foi à Panavision testar equipamentos, mas todas as lentes pareceram clínicas demais. As antigas, por causa do verniz de outra época, tinham um poético efeito de difusão que acabou saindo de moda com a corrida por fidelidade. Por isso os funcionários começaram a abrir armários e encontraram no canto as tais lentes Ultra Panavision. O DP quis fazer testes, e  foram ao Colorado rodar um material demo, que foi exibido a Tarantino em seu cinema particular. O diretor “ficou louco e ali na hora resolveu que faria o filme daquele jeito” pra desespero do pessoal da empresa.

Em consequência, 19 lentes tiveram que ser recuperadas, o que incluiu remontagem, reaplicação dos vernizes mofados (de acordo com receita dos anos 50) e adaptação pro sistema reflex, porque seu elemento traseiro batia no espelho das novas câmeras 65mm. E tudo teve que ser adaptado pra rodar no frio extremo do Colorado – mesmo as cenas em estúdio eram gravadas em temperaturas negativas, pros atores se ambientarem e rolar fumacinha real saindo da boca. O filme foi rodado com 2 câmeras e apenas lentes prime (fixas), com Tarantino operando às vezes.

  • Câmeras: Panavision 65 HR e Panavision Panaflex System 65 Studio
  • Lentes: Panavision APO Panatar
  • Filme 65mm: Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219

Ultra Panavision 70mm

Antes de tudo é importante esclarecer: por mais confuso que pareça, o 70mm usa filme 65mm (a diferença é o espaço para o áudio). E o 65mm por si só já é raro, mas vinha ensaiando um retorno com gente como Christopher Nolan e J. J. Abrams rodando algumas cenas de seus filmes no formato. Paul Thomas Anderson também é entusiasta e rodou O Mestre quase todo assim, mas com um crop central do negativo na finalização, pra manter compatibilidade com 35mm. Assim The Hateful Eight é o único que aproveita totalmente a película 65mm em anos, mas não apenas: ainda aplica lentes anamórficas que estendem o tamanho da projeção horizontalmente.

Isso é que é o Ultra Panavision 70mm: um formato anamórfico extremo, mais retangular que qualquer outro. Pra entender completamente você pode querer ler mais sobre captação anamórfica num post antigo aqui do blog.

Em linhas gerais, o vídeo normal, seja de iPhone, Alexa, 5D ou Gopro, tem um aspect ratio (razão largura / altura) de 1.76. O cinema comercial normal tem um aspect de 1.85, maior na horizontal. Quando rodam os filmes com lentes anamórficas normais (cada vez mais comum) chega-se ao formato Cinemascope, de aspect entre 2.35 e 2.39. Já o Ultra Panavision tem um aspect de 2.76, ainda mais largo. É o formato mais “paisagem” que já existiu no cinema, e estava extinto há 50 anos.

Não dá pra chegar nesse aspect extremo com uma película de 35mm porque você estaria jogando fora resolução demais. Por isso o Ultra Panavision só pode acontecer em 65mm. E assim as lentes das câmeras precisam não apenas se adaptar ao filme maior, mas também encaixar um retângulo extremo dentro dele. São tão raras que só existia no mundo um kit. Não é que o Tarantino usou o mesmo tipo de lentes de Ben Hur: ele usou AS MESMAS lentes que estavam guardadas e soldadas pelo tempo.

Para ser projetado diretamente o formato também requer lentes específicas no projetor, que fazem o contrário (extraem o retângulo do  negativo mais quadrado). E aqui está o último milagre do Tarantino: conseguiu convencer o estúdio a equipar 100 cinemas com essas lentes de projeção, que estavam praticamente extintas, para um circuito de exibição 100% Ultra Panavision analógico. A última vez que isso aconteceu foi com o filme Khartoum em 1966. Dizem que ele rachou o custo (US$80.000 por cinema) pessoalmente com o orçamento do filme. E os Weinstein tiveram que encurralar o mercado, simplesmente adquirindo todas as lentes do mundo (e dando manutenção a cada uma).

Isso sem falar que a Kodak teve de fabricar rolos de filme 65mm de 2.000 pés, o dobro do tamanho, pra acomodar o gosto do diretor por planos mais longos. Quer dizer, The Hateful Eight pode até ser ruim, mas já é case de um diretor influenciando a indústria a reviver um formato pra um filme apenas.

O que eu ganho com isso?

Mas além da nostalgia, qual a razão para usar um formato maior horizontalmente?

A razão é que você consegue fazer mais coisas caberem dentro do plano, sem ter de afastar a câmera (abrindo espaço indesejado em cima e embaixo) ou usar lentes grande angulares que deformam a imagem. O uso intuitivo pra algo assim são cenas de paisagem: dá pra compor planos enormes de vistas longas e detalhadas, e por causa da resolução do 65mm mesmo os detalhes ficam nítidos. Esse foi o uso clássico do formato, seja em faroeste ou em corridas de biga de Ben Hur.

Mas o filme do Tarantino se passa quase todo dentro de uma taverna.

Ele usou o formato pra compor planos em que você tem uma pessoa em closeup e duas ainda aparecendo ao fundo, ao lado dela. Ou takes que mostram 4 pessoas ao mesmo tempo em plano médio. O diretor já disse que para ele foi como revelar graficamente o tabuleiro de xadrez das relações entre os personagens (veja na entrevista abaixo). Pra ilustrar, abaixo um lindo plano de A Conquista do Oeste, de 1962, que seria impossível em outro formato:

Pra se ter uma idéia do ganho espacial, no universo digital o Ultra Panavision 70mm seria equivalente ao sensor full frame de uma fotográfica como a Canon 5D ou a Sony A7S, mas 30% mais largo. Quem começou gravando com DSLRs APS-C (crop) e passou pra uma full frame sabe o respiro que já dá ao gravar lugares pequenos. Aquela cinquentinha que só fazia closes e era impossível de operar na mão de repente vira uma lente super útil.  Imagine mais…

Esse efeito obviamente se mantém mesmo não assistindo ao filme projetado em 70mm. A taverna parece pequena, mas ao mesmo tempo os atores estao sempre em cena (e consta que eles adoraram). A luz precisa ser pensada pro set inteiro o tempo todo. A dramaturgia ganha outro peso. É um recurso fascinante em fotografia porque poucos entendem racionalmente, mas a platéia é influenciada por ele durante todo o filme. E assim Tarantino e Richardson fizeram um longa com uma estética única em 50 anos.

O lançamento roadshow

Aproveitando o hype, diretor e estúdio resolveram empacotar a luxuosa exibição em 70mm como um roadshow à moda antiga. Isto é, transformar a sessão num evento, com tapete vermelho, programa, champagne e intervalo no meio, como uma ópera. Abaixo Samuel L. Jackson explica de maneira bem divertida a ideia:

É uma brincadeira construtiva! Numa época em que todos se acostumam a assistir filmes em iPhones, ajuda a lembrar que existe outra maneira de experienciar cinema. Não se trata apenas de preciosismo ou imersão, as forças de mercado exigem cada vez mais close-ups e menos planos abertos pro material funcionar em telas pequenas. É legal lembrar os donos do dinheiro que não faz sentido voltar a produzir tudo como na TV dos anos 50.

Abaixo uma conversa de 40min em que Tarantino recebe Paul Thomas Anderson em seu cinema privado em Austin. São dois dos maiores defensores do 70mm nos últimos 5 anos (junto com Chris Nolan, que começou tudo). Entre muitas referências, falam ao repórter do Deadline sobre grandes formatos, como entendem que a experiência de exibição importa, e que a decisão de substituir a película por digital foi tomada entre estúdios e distribuidores sem consultar os autores. É uma entrevista longa mas vale a pena.

Mas e o filme?

O que eu achei do filme? É uma receita com vários ingredientes interessantes…que falha. A fotografia me entreteve por um bom tempo, pontuada por aqueles diálogos sarcásticos em que você dá risada, mas a partir de um ponto não havia mais nada. E aí o gore do Tarantino, que em outros filmes funcionou como assinatura autoral, sobra. E tudo isso afinal, ele já fez antes. A impressão que tenho é de estar vendo o trabalho de um cineasta que com a fama e o passar do tempo ficou auto-indulgente demais. Como um dos seus personagens: alguém que na verdade não se importa de onde vem e pra onde vai, só fica falando, e pelo (grande) carisma, atenção ao detalhe e devoção demonstrados a gente fica ali ouvindo. Mas no fim do dia é a mesma coisa que ver novela pra limpar a cabeça…o tempo em 70mm podia ser melhor gasto!

Foi mal. Mas a fotografia…

Comentários

  1. Marco
    Marco janeiro 13, 22:12
    Ainda não assisti, mas foi muito válido o post até pq também sou um grande interessado em cinematografia e estudos de fotografia pra CINEMA em geral. e a fotografia do filme costuma me prender também quando a história e a atuação não são lá grande coisa. E é claro, vou assistir para também participar dessa experiencia cinematográfica que são os 70mm, até pq as outras obras gravadas no formato não tive oportunidade de ver no cinema. post muito válido, principalmente para quem tem interesse e também para aqueles que não sabiam do que se tratava quando no final do trailer aparecia a "propaganda": See it in glorious 70mm ultra panavision 70 Muito bom! keep it up
    • Pedro Vilhena
      Pedro Vilhena Autor janeiro 14, 04:01
      Obrigado pelo feedback Marco, e bom filme!
  2. FiLL
    FiLL janeiro 14, 10:42
    Excelente post Pedro... Quero citar também um ponto que não foi citado. O filme rodado com essa proporção, talvez nunca fique obsoleto em termos de resolução quando convertido pra o digital 4k, 8k e até mais. As câmeras digitais como Alexia e Red estão chegando na qualidade, resolução e latitude que câmeras analógicas já conseguiam a 50 anos atrás. Um grande exemplo é este frame que postou de um filme de 1962, muitas DSLRs não conseguem esta qualidade. Mais uma vez parabéns pelo post, estou louco pra ver o filme.
    • Pedro Vilhena
      Pedro Vilhena Autor janeiro 17, 04:01
      É verdade! Eles estimam o 65mm entre 8k - 12k mas sem desprezar o digital, acho que filme ainda é filme. Depois que assistir diz aqui o que achou! Abs.
  3. Fernanda Serpa
    Fernanda Serpa janeiro 20, 12:25
    Excelente artigo. Ainda não assisti ao filme, mas como fã do Tarantino estou ansiosa, pois será minha primeira película em 70mm. Porém, não é a primeira vez que leio críticas sobre a narrativa fraca. Ainda assim, é Tarantino e a gente simplesmente PRECISA ver, né? Grande abraço! Parabéns pelo texto. Visite meu blog: http://colmeiadeletras.blogspot.com.br/
  4. […] toda a equipe coreografando as cenas antes e depois de chegar às locações. O resultado é o que Os Oito Odiados só insinua na linda abertura: mais de duas horas de planos de luz difusa na neve. E paisagens que […]
  5. fabio Pires
    fabio Pires maio 10, 02:45
    assisti o filme e percebi a riqueza de detalhes que so é possível com captação analógica das imagens, sem contar que o formato cria uma perspectiva imersiva ao espectador sou fã de cinema, mas os filmes modernos principalmente aqueles de super heróis deixam muito a desejar em fidelidade de imagens, são cheios de rastros e micro quadriculações na imagem a evolução digital no som e imagem trouxe recursos operacionais ilimitados porém limitou a fidelidade daquilo que é captado e reproduzido
    • Pedro Vilhena
      Pedro Vilhena Autor maio 10, 18:49
      É bom ver "cinema cinema" pra variar né, e olha que nem gostei tanto do filme. Também não tenho apreço pelas falcatruas digitais que os diretores fazem nos filmes de ação ultimamente. Como sempre o formato não tem culpa de nada, quem tem são os que artistas que o utilizam mal...

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