O Regresso: tudo sobre a fotografia que levou o Oscar (e segura um filme inteiro)
março 7, 2016
Pedro Vilhena (189 articles)
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O Regresso: tudo sobre a fotografia que levou o Oscar (e segura um filme inteiro)

Sou muito feliz de ter assistido a O Regresso numa tela IMAX. O roteiro é clichê e o DiCaprio já esteve melhor (até porque mal fala), mas a fotografia…não à toa Lubezki levou o terceiro Oscar seguido. Pra mim foi uma experiência de imagem, trilha e efeitos, ignorando o resto. Tipo um Koyaanisqatsi que se passa só num pedaço do mundo.

Produção

O Regresso é “livremente inspirado na lenda do explorador Hugh Glass“, ou seja não mantém nenhuma relação com a realidade de fato, mas se propõe a contar as desventuras deste homem que sobreviveu ferido e perseguido por índios no inverno congelante do norte dos EUA. O filme foi rodado primariamente no Canadá e Estados Unidos, mas devido a um inverno inusualmente quente algumas cenas nevadas foram captadas na Argentina. O Regresso estourou seu orçamento em mais de 100%, consumindo 135 milhões de dólares (da projeção inicial de 60 milhões).

A dificuldade da produção já foi muito explorada na mídia, em boa medida para ajudar a promover o filme, que afinal é uma história de sobrevivência. O fato é que Lubezki e Inárritu decidiram captar longas passagens em planos sequência e usar apenas luz natural, o que limitava a janela das diárias nas locações gélidas (no inverno extremo o sol é baixo quase o dia todo, mas muitas vezes se perde atrás de montanhas). Por causa disso abriram mão de storyboards e investiram em ensaios, com toda a equipe coreografando as cenas antes e depois de chegar às locações. O resultado são mais de duas horas de planos de luz difusa na neve, em paisagens que parecem impossíveis (mas existem de fato, porque o diretor não topou fazer nada em tela verde). Um filme inteiro na fotografia da abertura de Os Oito Odiados, pra quem viu o outro indicado ao Oscar, também produzido em médio formato.

Fotografia

Inicialmente a ideia era rodar em película 65mm, mas previsivelmente o digital se mostrou mais favorável às condições de baixa luz. Foram então de sistema Alexa, utilizando Alexa XT e Alexa XT M. Mas eventualmente a ARRI ofereceu sua ARRI 65 que tinha acabado de sair da fábrica, juntando as vantagens do digital com a qualidade épica do 65mm. Lubezki aceitou muito feliz. A curiosidade é que a câmera usada foi uma versão teste, que não tinha nem sido aprovada pelo FCC e até a metade do filme ficou sem seguro. Ainda assim gravou aproximadamente 40% das cenas e inaugurou o sistema digital 65mm em Hollywood (que deve se tornar bastante popular daqui pra frente).

Hoje em dia ninguém filma mais nada sem Technocrane

As lentes foram ARRI Master Primes, preferidas do fotógrafo pelo look clínico. Chivo aliás, como é conhecido Lubezki, sempre gostou de pouca textura mesmo quando trabalhava com película. Isso foi parte do que o seduziu no digital. Sua técnica de trabalho em luz natural foi aperfeiçoada com o mestre Terence Malick em Tree of Life, quando também consolidou seu amor por grandes angulares, extensamente utilizadas em O Regresso.

ARRI 65 com uma Master Prime 24mm.

Nos últimos longas o DP tem preferido trabalhar com abertura máxima de f/5.6 porque gosta de profundidade, mas o sensor 65mm tem foco delicado mesmo com íris fechada. Por isso diz que não poderia ter realizado o filme sem John T. Connor, fotógrafo em começo de carreira que topou assumir a posição de foquista e pilotar as lentes, desde as mudanças de ponto de vista dos planos sequência até os close-ups insanos em 12mm (como quando a respiração do DiCaprio chega a embaçar a lente).

Buscando a imersão do espectador na jornada, o movimento de câmera de O Regresso aproveita muito das técnicas de emenda de takes utilizadas em Birdman, incluindo a colagem por “morph cut” – que tem sido largamente empregada, da abertura de Spectre ao novo clipe do OK GO. Neste filme Chivo diz que os takes são juntados de maneira sofisticada, não apenas no fim e no começo mas dividindo frames ao meio em dado momento, por exemplo. Torna-se impossível achar o corte dentro de uma cena.

Abaixo uma boa e rápida análise do trabalho do Lubezki como fotógrafo, comentando desde sua filmografia inicial até a preferência por filmar rostos a partir do lado mais escuro:

E aí?

Pra mim O Regresso é um filme ruim com uma fotografia tão incrível que o salva. Passei as 2:30hs no IMAX como se estivesse numa visita virtual ao Yellowstone. Mas possivelmente numa TV pequena vai se tornar só uma mistura de Dança com Lobos e No Limite, então recomendo assistir da melhor (e maior) maneira possível. Uma coisa é certa: em tempos de gimbals baratos e câmeras gravando raw, a estética do filme vai ser bastante copiada.

Ou talvez o melhor termo seja entrar na moda, porque também não chega a ser uma revolução no cinema.  Fecho com a interessante (e obsessiva) comparação abaixo entre cenas de O Regresso e outras de diversos filmes do russo Tarkovski:

Fontes: Indiewire, Director´s Guild of America, Wikipedia

Comentários

  1. Lopes
    Lopes março 11, 19:39
    A fotogragia é um elemento que esta presente em tudo. Ela nao so serve para um registro mas, tambem para refletir um tema, uma redação. Como algo que também faria da historia em todos os tempo inddecifrável . A fotografia alem de registro da realidade ela cria uma relidade real e decifrável de forma que mesmo imaginando através da historia por meio apenas de escrita nao seria nada apenos de que ilusão criada pele tendativa de nossa mente , espelhada em alguama esperiença vivida a tempos ppr nós... Criamo por meio disso um parecer sa história . Mas com a fotografia podemos ver no tempo seus aspectos, cultura e daí podemos imaginar algo mais fiel mais intricico, com tudo mais tocante no assundo do que uma mera fábula de nossas mentes produzindo abstrariamente do consciente uma outra história que foge do tempo atual onde o autor deseja dizer em seu texto. fotografia coloca no tempo o real acontecimento dos datos e e das ideias. Se Cristo foce fotografado e hj encotrasse sua real imagem . Nao deveriamos ver mais uma história com dúvidas mas sim descartaria-mas quem sabe a nossa ideia em imagens. A fotografia esteve nós planos divino desde sempre e vaio a ser criada , pelo menos a perte principal dela , la em Gênesis quando o Criador desse: haja luz! E logo tudo se fez , todos a imagens foram criadas ... Como se um grandioso flash abrindo cenas diante dos olhos dos seres presentes naquele momento . As criação surgindo e a luz dando visibilidade. Sem a qual nada poderia ser vislumbrado. A história sem luz "photo" nao seria uma ralidade , mas só especulações...
  2. […] em outra, viabilizando algo muito mais rico. Esse é o caso de Birdman, Spectre (abertura) e O Regresso. Também é possível usar a técnica como ferramenta criativa, caso do clipe do OK […]
  3. […] VideoGeek, DesignCulture, Cinemateca, Obvious, Omelete, CCine, […]
  4. […] Claramente uma resposta à ARRI, que chegou chegando com sua ALEXA 65 (usada pela primeira vez em O Regresso). Veja o vídeo de […]

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