Manual da luz: Desfazendo a confusão entre HMI, LED, fresnel, CRI e muito mais
outubro 5, 2015
Pedro Vilhena (189 articles)
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Manual da luz: Desfazendo a confusão entre HMI, LED, fresnel, CRI e muito mais

No começo todo mundo só liga pras câmeras, mas eventualmente se entende que boa luz é fundamental. Acontece que é difícil conseguir informações porque iluminação é algo muito prático, e mesmo quando não querem manter a mística da profissão os iluminadores apenas falam sobre o que estão usando no set.

Esse talvez seja o último tema básico nunca abordado no blog e pra resolver essa pendência resolvi escrever um post-manual!

Características gerais

Medidas:  Na prática sempre se falou em watts, 1000w, 650w, 150w. Mas quando fontes mais eficientes foram introduzidas essa medida foi perdendo o sentido (assim como em casa tivemos que aprender que uma lâmpada fria de 15w vale pela antiga de 60w).

Não é fácil medir luz objetivamente porque depende da área em que ela se propaga e do foco do feixe. A maneira mais precisa de medir intensidade é em lumens ou lux. O primeiro é uma grandeza absoluta, já 1 lux=1 lumen/metro quadrado. De maneira geral 1 lux equivale a uma noite clara de lua cheia; 100 lux a um dia nublado escuro; 60.000 lux a sol direto. Mas é muito difícil ter controle desses valores. O importante é comparar números iguais – um refletor em foco aberto entrega X lumens enquanto outro na mesma posição gera Y lumens, etc.

Como a maioria dos gaffers/iluminadores não tem a menor ideia de valores em lumens, o jeito é decorar as equivalências em potência de todas as fontes, marcas e tipos de refletor geralmente usados. É barra mas vem com a prática, até porque no Brasil não temos tantas marcas de refletores assim.

Eficiência: a quantidade de luz que uma lâmpada entrega com um tanto de energia: lumens/watt. Esta é uma boa maneira de comparar refletores e lâmpadas justamente por conta das várias tecnologias com diferentes qualidades e consumo, como veremos abaixo.

Temperatura de cor*: mesmo a luz do dia naturalmente muda de cor, e nossos olhos se adaptam muito bem, mas as câmeras nem tanto. Esta é a medida usada pra definir o quanto uma fonte tende ao amarelo ou azul e fazer as adaptações pertinentes, tanto corrigindo o branco na câmera quanto para aplicar gelatinas e misturar corretamente fontes de cores diferentes. Em regra a luz do dia é 5600K, mas um nascer do sol pode ser 2500k e um fim de tarde 7000K, por exemplo. Para luz artificial varia com o tipo e idade da lâmpada, e falarei de cada uma abaixo.


* Porque se mede em Kelvin (K)? Como é necessário um referencial, a física utiliza o conceito de corpo negro ideal, que a determinada temperatura é capaz de irradiar a mesma energia que recebe de uma fonte de luz. Daí a associação de uma medida térmica a cores. Puta coisa chata mas este é um manual afinal =) 

Qualidades de luz

Luz dura: é a luz direta, que provoca sombras de alto contraste e bordas bem definidas onde incide. É como o sol do meio dia ou o canhão de um teatro. Muito usada lateralmente ou por trás dos atores para definir silhuetas e separá-los do fundo, mas dificilmente como luz principal.

Luz difusa: é a luz indireta ou difundida por algum anteparo, que resulta em poucas sombras e parece abraçar os atores. É menos direcional, como a luz de um dia nublado. Considerada mais “refinada”, é escolhida para valorizar qualquer objeto, mas mais difícil de produzir porque precisa de filtros ou rebatedores que por sua vez requerem uma fonte potente e recuo no set.

Luz dura vs. luz difusa

CRI: Color rendering index, ou índice de reprodução de cor, é uma das medidas de qualidade da fonte de luz. Quanto mais alto, melhor. O sol possui CRI 100, significando que reproduz todas as cores de maneira igual, mas muitas lâmpadas não geram energia de maneira homogênea no espectro. Fluorescentes e LEDs emitem mais energia em algumas frequências e completamente ignoram outros tons, como cianos por exemplo, provocando distorções na reprodução de cor. Essa é uma das coisas que faz você achar uma luz estranha e não entender o motivo. Um CRI de 90 já é considerado excelente.

Sobre CRT

Distâncias e tamanhos: muita gente não sabe mas iluminação envolve mais que lâmpadas, refletores e cores. Quanto maior a fonte mais homogênea será a luz; e quanto mais próxima, mais rápido seu caimento no objeto (mesmo uma fonte grande, próxima o suficiente vai provocar um delicado gradiente do claro para o escuro no rosto do ator, enquanto uma fonte distante o iluminará de maneira homogênea).

Refletores

Existe muita confusão sobre o que é refletor e o que é lâmpada. Muitas vezes um acaba levando as características do outro – as pessoas dizem que um Kino é mais eficiente e frio que um fresnel, mas na verdade essas são características das lâmpadas. É nesse sentido que tento separar as coisas aqui.

Fresnel: Um cilindro com um trilho que permite deslocar a lâmpada pra frente e pra trás, e uma lente na frente. O francês Fresnel foi o inventor da lente para faróis marítimos, e por isso dá nome a esse refletor que usa uma versão menor do mesmo vidro. Sua função é focar a luz enquanto a difunde, deixando o feixe com sombras mais suaves. Isso somado ao movimento interno da lâmpada resulta numa grande possibilidade de controle. Por essas características o fresnel é o refletor mais utilizado para cinema e dramaturgia.


PAR: 
PAR quer dizer refletor parabólico aluminizado. Um nome bonito para descrever uma lata com uma lâmpada. A lâmpada tem sua especificidade: é selada e produz um feixe de luz oval, muito similar ao farol de um carro. O refletor tem o formato de um cilindro, mas sem uma lente na frente como o fresnel o controle de foco se torna bem primário. É muito comum em teatros, circos e casas noturnas (onde recebem gelatinas coloridas na frente).


Flood (setlight):
O refletor mais barato e simples, também conhecido como pau de fogo ou buscapé, porque é uma lâmpada de alta potência e calor num palito de metal. Muito parecido com aquela luz de jardim retangular. É ruim porque não permite nenhum controle do feixe (a luz inclusive vaza para trás), mas também é o mais barato e pode salvar se tudo que você precisa é jogar algo pro teto (#quemnunca).

PL: O kit que abriga luz fluorescente acaba sendo conhecido por PL em muitos lugares, mas na verdade essa é uma definição desse tipo de lâmpada. De qualquer maneira o refletor em si é apenas uma caixa de metal em que cabem os reatores e os conjuntos de lâmpadas frias, aberta para um lado; a luz não é direcionável. Muito usados em externas de TV.

 

Kino: é um refletor também de luzes fluorescentes mas mais sofisticado, com estrutura flexível e possibilidades de difusão e direcionamento através do uso de colméias ou acessórios. Começou feito por uma marca (“Kino flo“) e depois foi copiado pelos chineses. Kinoflos também costumam vir com lâmpadas de melhor qualidade. Ainda assim, no fundo seguem o mesmo princípio básico da “panela de luz” aberta pra um lado. Muito usados em estúdios de TV.

 

PS: Esses são cinco tipos principais mas existem muitos outros, principalmente levando em conta as opções com difusores, octos, balões, Dedolights etc. Cada marca desenha o seu refletor mas no final luz é luz. O importante é entender as possibilidades gerais de direcionamento, difusão, portabilidade e segurança pra seguir usando o que quiser – ou até fazer o seu, porque no fundo são estruturas simples.

 

Lâmpadas

Tungstênio (quartzo ou halógena): Essa lâmpada é como a clássica de filamento da vovó, mas com a adição de um gás halógeno que aumenta sua temperatura e a vida útil. É uma tecnologia pouco eficiente, de alto consumo e geração de calor, mas ainda muito utilizada por suas características mais próximas à luz natural. A reprodução de cor é excelente; alguns fotógrafos não abrem mão de um fresnel tungstênio se precisam iluminar um closeup. Costuma ter temperaturas entre 3000k – 3600k (pode variar e depende inclusive do tempo de uso da lâmpada).

Fluorescente (fria): Esta também é conhecida. As lâmpadas fluorescentes profissionais funcionam da mesma forma que as domésticas, apenas em tamanho e potência diferentes, e melhor CRI. São aproximadamente 4x mais eficientes que as de tungstênio. Vale dizer que não são nada frias, apenas menos quentes que aquelas. Sua temperatura de cor fica entre 4200K – 4600K.

HMI: Muita gente se refere ao HMI como um refletor. HMI é uma lâmpada de arco voltaico (não há filamento), que excita vapor de mercúrio e outros metais gasosos, que por sua vez geram luz. Os refletores que recebem a lâmpada HMI costumam ser do tipo PAR ou Fresnel. Pela peculiaridade do sistema eles precisam de reatores que controlam a corrente (os ballasts).

O HMI se tornou a primeira opção no mundo todo para emular luz do dia, tanto pela alta potência e rendimento quase 4x maior que a incandescente normal, quanto pela temperatura de cor elevada (5600k-6000k). Estas lâmpadas naturalmente “flickam”, ainda que modelos mais recentes empreguem reatores eletrônicos mais precisos, que controlam o arco e reduzem muito o efeito. Mas isso as torna menos indicadas para produções com câmeras de alta velocidade.

LED: light emitting diode, ou diodo emissor de luz, é a fonte mais eficiente existente no mercado, com ~75% de economia sobre um similar tungstênio. A lâmpada tem vida útil de +10.000 horas, uma infinidade. E não é só, também permite intensidade e temperatura de cor dimerizável além de gerar menos calor (ainda assim exige alguma refrigeração mas a diferença é que ele é dispersado para trás da “lâmpada”, não pra frente, ajudando os atores). Então porque os LEDs não substituíram todas as luzes do mercado?

Os desafios atuais dessa tecnologia são o baixo CRI – que vem sendo resolvido nos melhores refletores, mas os chineses são terríveis – e a estranha qualidade que resulta de geralmente os painéis utilizarem vários LEDs no lugar de uma fonte única. Isso causa distorções na distribuição da luz pouco perceptíveis a olho nu, mas visíveis na câmera (luz “que não abraça” os objetos). Os fabricantes começaram a recomendar uma placa difusora na frente dos painéis, mas isso diminui sua potência efetiva; a Mole Richardson e a Arri começaram com uma tecnologia chamada quantum dot LED que permite fresnéis de apenas um LED e alta potência. Estes são hoje os melhores, mas ainda muito caros.

Vou fechar o post por aqui porque se entrar em dicas de iluminação a coisa se alonga demais. A continuação falando de setups básicos fica pro próximo!

Comentários

  1. lopes
    lopes novembro 18, 13:29
    Gostei muito mesmo trabalhando com iluminaçao cenica aprendemos todos os dias algo diferente.
  2. Marco
    Marco fevereiro 20, 15:48
    Muito bom o post sobre iluminação, e como vc mesmo disse, não é fácil encontrar um material na internet que sane várias dúvidas de maneira objetiva, clara e simples. Gostei muito das exemplificações sobre o CRI em geral, foi de grande valia. Só tenho uma dúvida: na parte em que vc cita as lampadas e fala um pouco sobre cada uma delas. na HMI vc não recomenda ela em uso em produções com camera de alta velocidade. O que seria uma camera de alta velocidade? e por que a HMI não é recomendada para isso? Obrigado e parabéns. continue pois seu blog é muito bom
    • Pedro Vilhena
      Pedro Vilhena Autor fevereiro 23, 02:21
      Câmeras de alta velocidade são aquelas usadas pro efeito de "câmera lenta" profissional Marco. Na verdade hoje isso está bem acessível e muitas câmeras tem um modo de alto frame rate. O próprio iPhone já faz 240fps. Nesses casos o flicker do HMI pode ficar bastante aparente e acabar com o take!
  3. Marco
    Marco março 01, 20:03
    Ah sim, por um momento eu imaginei que a velocidade que você estava se referindo era a do shutter hhaah, obrigado pelo esclarecimento
  4. Der
    Der maio 03, 18:50
    Gostei muito do post, varias duvidas sanadas de forma simplificada
  5. Manoel
    Manoel junho 03, 00:55
    Gostaria de saber mais sobre as lentes dos refletores com lâmpada hmi.
    • Pedro Vilhena
      Pedro Vilhena Autor junho 03, 15:48
      Manoel as lentes dos HMI são como as de outros refletores, o que muda é a lâmpada. Existem fresnéis e PAR, e dependendo da escolha vc recebe o refletor com a lente correspondente, as mesmas de um halógeno/tungstênio clássico...abs.

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