Beasts of No Nation: por que assistir ao primeiro longa original Netflix
outubro 25, 2015
Pedro Vilhena (189 articles)
0 Comentários
Compartilhar

Beasts of No Nation: por que assistir ao primeiro longa original Netflix

O primeiro longa da Netflix é uma produção independente que acompanha a vida do menino Agu. Separado de sua família num país africano, o garoto é forçado a lutar com um grupo rebelde durante a guerra civil. Não é um filme divertido, mas impactante e bonito. O diretor Cary Fukunaga (True Detective), que também faz a fotografia, se supera com cenas da paisagem de Gana e retratos da amizade entre Agu e o amigo-soldado Striker. Mesmo boicotado pelos cinemas Beasts of No Nation já está cotado para o Oscar 2016, o que pode deixar os estúdios bastante desconfortáveis.

Antes de tudo um “disclaimer”: provavelmente este longa vai ser bastante comentado. Se você está lendo antes de assistir, vale diminuir as expectativas pra preservar a experiência: o filme não é revolucionário ou vai marcar o cinema para sempre, mas traz diferenças em roteiro e narrativa, que realçam o quanto os longas de Hollywood perdem artisticamente por se manterem reféns de um modelo comercial centenário.

Trailer:

Pré-produção

Beasts of No Nation foi escrito, dirigido e fotografado por Cary J. Fukunaga, o jovem e já bombado diretor responsável pela primeira temporada de True Detective. Filho de mãe suíça-americana e pai japonês-americano, Fukunaga cresceu na área de San Francisco mas morou em diversos locais, México inclusive. Treinava para ser um snowboarder profissional mas desistiu em torno dos 25 pra estudar cinema na NYU (oportunidade na vida é tudo).

O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome do escritor Uzodinma Iweala, feita ao longo de 7 anos por Fukunaga. Foram mais 3 anos de pré-produção, parte deles gastos na corrida por financiamento, já que mesmo com o diretor e Idris Elba a bordo nenhum estúdio quis bancar um filme com um elenco 100% negro. Sim, porque nessa história na África não há o branco coadjuvante pro americano médio se identificar – os únicos brancos do casting passam dentro de um furgão da ONU tirando fotos numa estrada, como observadores exóticos. Pra piorar o diretor queria trabalhar com um elenco largamente de não-atores locais. No fim, o filme foi financiado por empresas de empréstimo, que liberaram os 6 milhões necessários pra produção.

Fukunaga e Elba na capa da Variety

Sendo uma história que conta o caso das crianças-soldado do oeste africano (são estimadas 30.000 nessa situação), Fukunaga queria filmar na região. Após procurar locações na Libéria e Serra Leoa conseguiu autorização do seguro para rodar em Gana, onde nenhum filme americano havia sido feito. Idris Elba foi o primeiro a ser chamado pelo diretor, que sabia que o astro de The Wire tinha o carisma natural pro papel do desprezível Comandante. O ator se interessou pelo material pois sua mãe é de Gana e ele nunca havia visitado o país, e se tornou também produtor do filme.

O restante do elenco é largamente de desconhecidos capitaneados pelo novato Abraham Attah, o menino de 15 anos que faz o papel principal de Agu, e impressionou o diretor ao chorar a pedido na audição de testes (Attah na verdade impressiona em todo o filme).

Histórias de produção

Beasts of No Nation foi gravado em 5 semanas em Gana de junho a julho de 2014 em esquema de guerrilha. As desventuras da produção já estão ficando famosas. Antes de começar Fukunaga foi um dos que contraiu malária e teve que ficar 1 semana de cama. O operador de câmera distendeu a coxa no primeiro dia, obrigando o diretor a exercer também essa função (além de produtor, roteirista, diretor e fotógrafo). Os funcionários não eram confiáveis: motoristas de caminhão sequestravam equipamento por recompensa, e no dia seguinte ao jogo em que EUA ganharam de Gana na Copa do Mundo ninguém apareceu no set. Figurantes foram presos na Costa do Marfim sob suspeita de serem mercenários. O elenco morria de medo de cobras venenosas, e Fukunaga – que andava pela selva com uma machete e um cajado – quase pisou numa mamba negra que poderia matá-lo. Idris também viu a vó pela greta ao se apoiar numa árvore pra olhar uma cachoeira e rolar penhasco abaixo, salvo de uma queda de 30 metros por um galho no caminho.

“Simplesmente não havia dinheiro e tempo suficientes num país que não está acostumado a abrigar uma produção de cinema como a nossa, então coisas que você considerava garantidas como comida, transporte e hotéis se tornavam um problema. Nós estávamos perdendo coisas e outras sendo roubadas.”

O filme ultrapassou o orçamento em 1 milhão (eram 5 inicialmente previstos) e o diretor teve que lutar pra manter a bola em jogo. “Todo dia parecia um navio afundando. Nós estávamos rodando na temporada de chuvas. Os sets iam embora com a água.” Na volta, à medida em que lentamente montava um monstro, teve certeza que não havia terminado de rodar todas as cenas que precisava e teria que fechar alguns buracos com voiceover (curiosamente, aproveitando que vinha ao Brasil para um evento, aproveitou para refazer uma cena de um ataque de helicópteros na selva à noite).

Diretor e ator no set

Uma vez que a Focus Films tinha comprado os direitos da adaptação de Beasts inicialmente, teve prioridade na aquisição do filme. O estúdio viu um corte em dezembro de 2014; a Netflix viu o mesmo corte um mês depois, e fez sua proposta. Quando a Focus recusou, a gigante do streaming anunciou sua primeira aquisição de um longa. Diz Ted Sarandos, executivo chefe de conteúdo da Netflix que já viu o filme seis vezes: “Pensei, se estamos entrando no negócio de filmes, devemos pegar projetos que são excepcionais e difíceis de distribuir de outra maneira”.

A Netflix gostou o suficiente para pagar 12 milhões de dólares, o dobro do custo. Um valor único, já que não haveria porcentagem de bilheteria ou venda de DVDs, mas generoso o suficiente para permitir a todos os investidores, e Elba, ter um lucro saudável. “Estou muito feliz que Netflix comprou,” diz, “A tela grande sempre será a tela grande. Mas agora um filme pequeno como esse, com um orçamento mínimo, vai ter audiência”. Fukunaga ficou um pouco mais reticente pois queria que o filme fosse para os cinemas. Tinha acabado de fazer True Detective e achava importante a experiência da tela maior. Mas a empresa topou fazer um lançamento simultâneo em salas (ainda que tenha sido boicotado pelas maiores redes, entrando em apenas 31 praças independentes) e o diretor se deu por satisfeito.

“Espero que as pessoas assistam de uma vez, quando você vê algo em casa é tentado a dividir em partes e a experiência emocional é interrompida”, diz Fukunaga.

Em compensação onde um estúdio tradicional poderia recuar na violência, a Netflix está fazendo o contrário. O primeiro trailer mostra uma cena brutal em que Agu dá um golpe de machete na cabeça de um homem. “Havia muitas questões dos financiadores sobre como eu mostraria a violência,” diz Fukunaga, “que é um tema comum em meus trabalhos passados. Mas a brutalidade que mostro no filme não é nem 1/10 da violência real. Ainda assim é difícil para as pessoas engolirem.” Sobre isso, diz o “comandante” Idris: “Havia uma parte de mim que falava, ‘Quem vai ver este filme?’, mas agora a resposta é, provavelmente milhões de pessoas, que receberão alguma educação sobre o que está acontecendo no mundo. Então você sabe, o modelo Netflix…porra obrigado por isso!”

Abaixo o diretor explica seu ponto de vista ao vender o filme para a Netflix.

O lado da Netflix

A compra de Beasts of No Nation por parte da Netflix ilustra a montanha russa do cinema independente, mas não só: a revolução do mercado de cinema que parece ter se iniciado em definitivo. 12 milhões de dólares não é muito para a empresa, que tem ~500 milhões para gastar em conteúdo anualmente, e um pouco antes fechou com Brad Pitt por 60 milhões seu novo longa “War Machine”. Não são apenas filmes sérios: a rede também assinou com Adam Sandler para quatro filmes num valor estimado de 240 milhões de dólares. Os filmes do ator tem falhado nas bilheterias, mas aparentemente o big data da Netflix indica que o material vai ser popular entre seus 69 milhões de assinantes.

Todos os projetos são inéditos. O homem que controla esse orçamento é Ted Sarandos, já devidamente eleito pela Time como um dos 100 executivos mais influentes no mundo. Ele não exclui financiar um blockbuster de 150 milhões de dólares como “Jurassic World”. “Nós estamos produzindo nessa escala nas nossas séries, não seria um salto tão grande” diz.

O lançamento de Beasts of No Nation nos cinemas foi em parte um pedido do diretor Fukunaga, e em outra uma estratégia para o Oscar. Para concorrer um longa precisa entrar em cartaz nos cinemas da região de Los Angeles por pelo menos uma semana. O filme previsivelmente teve resultado terrível nos primeiros dias, afinal foi lançado simultaneamente em streaming – e a empresa não podia se importar menos.

A Netflix vai colocar toda sua força de marketing em Beasts mirando o Oscar, com a ajuda da consultora especializada Cynthia Swartz. O filme vai competir nas maiores categorias e a internet já fala em Elba como melhor ator coadjuvante. Séries como House of Cards e Orange is the New Black romperam a barreira do Emmy ao receber prêmios de TV dentro de um serviço de streaming, mas o Oscar é território desconhecido e polêmico; a Netflix levar uma (ou mais!) estatueta por um filme independente boicotado pelas grandes redes de cinema seria coisa grande, numa indústria extremamente tradicional.

*Fontes: Wikipedia, Variety, Verge, Rolling Stone, Huffington Post, The Atlantic, Forbes.

Comentários

Nenhum Comentário Ainda! Seja o primeiro a comentar este post.

Escrever comentário

Seus dados estarão seguros. Seu endereço de email não será publicado. Os outros dados também não serão compartilhados com terceiros. Campos obrigatórios marcados com *