007 Contra SPECTRE: A fotografia milionária de Hoyte van Hoytema
dezembro 21, 2015
Pedro Vilhena (189 articles)
3 comments
Compartilhar

007 Contra SPECTRE: A fotografia milionária de Hoyte van Hoytema

É sempre divertido analisar a fotografia das grandes produções. O Hoyte van Hoytema é um DoP que nos últimos 10 anos escalou o monte Hollywood até o topo. Gosto do trabalho dele em O Espião que Sabia Demais, Her e Interstellar, e agora encarou o desafio de fazer um 007 sucedendo Roger Deakins, um dos melhores diretores de fotografia americanos vivos.

Produção

007 Contra Spectre é por si só uma produção ambiciosíssima, vindo na esteira do muito bem sucedido Skyfall – e por isso com muita expectativa. O estúdio liberou um caminhão de dinheiro para o diretor Sam Mendes tentar repetir o êxito anterior – 245 milhões de dólares pra ser exato, o que faz dele um dos filmes mais caros de todos os tempos. Foi rodado durante 7 meses em Londres, Cidade do México, Roma, Áustria e Marrocos. Todo esse dinheiro comprou uma produção com externas insanas, construção de palácios e SPAs em estúdio, e a maior explosão já feita no cinema. Abaixo um compilado de bastidores que dá uma ideia:

Só a sequência inicial, uma festa de Dia dos Mortos totalmente produzida que fechou a enorme praça do Zócalo, é de dar nó em pingo d´água e talvez seja a melhor de toda a franquia. Envolveu 1500 figurantes e o piloto acrobático Chuck Aaron, um dos ídolos da Red Bull, que patrocina seu helicóptero personalizado pra rolamentos e mergulhos. Na Áustria uma perseguição usou 11 Defenders e 7 Range Rovers, que tiveram que ser guinchados montanha acima e claro, 8 aviões (apenas dois voavam, os outros eram carcaças). Pra azar da produção a neve não compareceu na data de sempre, e tiveram que produzir 400 toneladas de neve artificial para cobrir a encosta da montanha. Já em Roma a perseguição levou 18 noites para ser gravada, empregando 8 Aston Martins e 7 Jaguars (na tela são só dois carros é claro). Tranquilo.

A Fotografia

Spectre foi rodado em Kodak 35mm, utilizando lentes Panavision Primo 70 e Zeiss Master anamórficas. Na verdade o único Bond que não foi realizado em película foi justamente Skyfall. O diretor Sam Mendes se diz fã das duas mídias e faz a comparação de maneira bastante racional: “Adoro digital. Senti a ARRI Alexa muito potente e bonita nas noturnas de Skyfall, particularmente em Xangai e no cassino (…). Mas digital é menos romântico, menos texturizado em muitas externas. E sob luz forte eu o sentia difícil de controlar, não favorecendo os atores.”

O blog da ASC traz uma entrevista com diretor, fotógrafo e gaffer em que detalham alguns dos setups do filme. A cena do palazzo italiano – que não foi rodada em locação, mas em estúdio! – conta com uma luz luxuosa não só no resultado mas também na planilha: foram utilizados 24 refletores de 5k e 144 refletores de 1k, sobre a mesa havia um enorme softbox retrátil com 50 space lights, e isso é só uma parte meu amigo. Diagrama de luz abaixo:

“Muitas dessas luzes estavam em baixa intensidade. Ter muitas fontes, ainda que estejam fracas, enriquece e aumenta o espaço” diz van Hoytema. “Também deixa mais fácil conseguir um contra quando se muda a posição da câmera.” Todas as fontes foram dimerizadas ou gelatinadas para uma temperatura de 2600K. O efeito de silhueta no personagem de Christoph Waltz foi conseguido com um T12 de contra, e abaixando eletricamente o softbox em todas as cenas em que aparecia pra evitar vazamentos.

Mesmo nesse plano mais fechado dá pra ver muita luz rolando

Uma reunião com conta de luz cara

Ao iluminar as externas do Palazzo a ideia era manter o mesmo aspecto luxuoso. O que foi resolvido com softboxes pendurados em duas gruas, é claro. O resultado é um fill light amarelado que parece vir de todo lugar, e permite ao espectador enxergar tudo do plano, sem quebrar a aura noturna.

A cidade de Londres aparece bastante no filme, em um número de sequências de ação. É claro que eles não iriam com um sun gun: iluminaram a cidade toda. Só o rigging demorou CINCO SEMANAS, incluindo 8 gruas, 2 pontos flutuantes no Tâmisa, 28 geradores, e segure a respiração: 30 20ks e 25 T12s no topo de prédios, além de 16 10ks, 12 5ks e 150 1.25k em pontes e ao longo do rio, pra ficar em uma parte. Ok? Curiosidade: como as sequências envolviam vôos de helicópteros à noite em baixa altitude, a produção enviou cartas a todos os moradores da área. 11 mil cartas. Muito inglês isso não?

Diagrama de luz pra cena da decolagem do helicóptero de Christopher Waltz

Assistir a essa gravação na beira do Tâmisa deve ter sido bem mais legal que olhar a árvore de natal na Lagoa Rodrigo de Freitas. A gente vê setups enormes e ricos em Hollywood, mas esses de SPECTRE são um pouco mind-bugging…

*Fontes: American Society of CinematographersAdorama, NoFilmSchool.

Comentários

  1. […] muito das técnicas de emenda de takes utilizadas em Birdman, mas não só: da abertura de Spectre ao novo clipe do OK GO todo mundo tem feito uso da colagem por “morph cut”. Além […]
  2. […] não são fáceis. Quando não se tem guindastes com softboxes gigantes como em Spectre, nem é desejável trabalhar com pouca profundidade, você pode fazer noite americana e resolver na […]
  3. […] numa locação e terminar em outra, viabilizando algo muito mais rico. Esse é o caso de Birdman, Spectre (abertura) e O Regresso. Também é possível usar a técnica como ferramenta criativa, caso do clipe do OK […]

Escrever comentário

Seus dados estarão seguros. Seu endereço de email não será publicado. Os outros dados também não serão compartilhados com terceiros. Campos obrigatórios marcados com *